O relógio marca 6 da manhã, finalmente. Após ter aguardado ansiosamente, contando cada segundo entediante, me dirijo ao mesmo local, como usualmente, e sinto a primeira brisa da manhã tocar o meu rosto. Um leve tremor me toma de súbito mas eu o ignoro. Busco o maço de cigarros no bolso enquanto contemplo o céu clareando vagarosamente, sem pressa, apenas como deve ser. Então acendo um cigarro distraidamente, mantendo a visão fixa no horizonte, mas minha mente vaga como um cigano, sem rumo, fugindo. De você. Respiro fundo então, inalando a fumaça adocicada misturada com o ar fresco matinal, me sentindo viva. Nostalgica. Fecho os olhos por alguns instantes e o que ocorre em seguida é inevitável. Sua imagem ressurge como uma projeção holografica, e eu posso ver novamente o seu sorriso estonteante, tão de perto que posso tocá-lo com a ponta de meus dedos. Posso ouvir sua voz suave cantando aquele refrão como em um sonho distante, mesmo que tenha sido real por uma questão de minutos. As lembranças são vívidas e me atingem em cheio feito um soco no estômago, então eu me permito sorrir ao degusta-las mais uma vez, e ansiar pelas próximas. Idealizo cada segundo, cada palavra proferida, cada olhar intencional, cada toque. Como sempre faço, mas dessa vez é diferente, porque eu sei que você tem a capacidade de torna-lo realidade, como ninguém jamais conseguiu, mesmo sem ter essa intenção. Eu sei perfeitamente da sua capacidade de me manter em órbita por quanto tempo achar necessário, sei que bastará um sorriso pra me deixar vulneravel e completamente entregue. Obviamente que me assusta. De qualquer forma, me alivia o fato de saber que compartilhará cada segundo, e no fim das contas não passará de lembranças para se recordar em um amanhecer frio de um dia qualquer de julho.